O BRASIL ENTRE A VERDADE, AS NARRATIVAS E O SILÊNCIO DE UMA NAÇÃO

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As últimas eleições presidenciais no Brasil escancararam muito mais do que uma divisão política. Revelaram um país profundamente fragmentado, onde a verdade parece disputar espaço com narrativas cuidadosamente construídas, o debate racional cede lugar às paixões ideológicas e a Constituição, tantas vezes invocada em discursos solenes, parece ter sua interpretação permanentemente colocada à prova.

Vivemos tempos em que questionar se tornou motivo de condenação pública, discordar passou a ser confundido com hostilidade e pensar de maneira independente exige uma coragem que jamais deveria ser necessária em uma democracia.

No último domingo, uma reportagem exibida pela Rede Globo chamou minha atenção. A emissora destacou a atuação de um grupo de WhatsApp criado durante o segundo turno das eleições de 2026, associado ao então deputado federal André Janones, conhecido como “Exército de Lula”.

O que me inquieta não é simplesmente a existência de uma estratégia de comunicação eleitoral. Afinal, campanhas políticas sempre utilizaram mecanismos de persuasão. O que merece uma reflexão muito mais profunda é o limite entre convencer e manipular, entre informar e explorar deliberadamente o medo das pessoas.

Durante aquela campanha, circularam mensagens alarmistas envolvendo o Bolsa Família, aposentadorias e direitos sociais. Afirmações dessa natureza, quando utilizadas sem a devida contextualização, podem transformar a insegurança de milhões de brasileiros em instrumento de disputa eleitoral.

Desde quando provocar medo se tornou uma virtude política? Desde quando a mentira, quando conveniente, passou a ser tolerada como estratégia?

E aqui não estou falando exclusivamente de um partido. Estou falando de um princípio que deveria valer para todos: a verdade não pode mudar de valor conforme a preferência política de quem a pronuncia.

Outro episódio que alimentou questionamentos foi a rapidez de determinadas providências judiciais após o encerramento das eleições. Circula a alegação de que uma comunicação envolvendo documentos teria ocorrido apenas sete minutos depois do término da votação.

Essa cronologia precisa ser documentalmente esclarecida antes de qualquer conclusão. Mas a questão central permanece: em uma democracia, a transparência das decisões institucionais não deveria ser uma concessão, mas uma obrigação permanente.

A confiança nas instituições não se constrói exigindo silêncio da população. Constrói-se oferecendo explicações, respeitando o devido processo legal e permitindo questionamentos legítimos, sem transformar toda dúvida em ameaça à democracia.

E quando uma emissora de televisão, com enorme alcance nacional, aborda episódios tão sensíveis, sua responsabilidade é igualmente gigantesca.

O jornalismo não deveria existir para consagrar personagens políticos, mas para investigar, contextualizar e confrontar versões com fatos. A imprensa cumpre sua função mais nobre quando mantém independência, inclusive diante daqueles com quem eventualmente compartilha determinadas posições.

Uma mentira repetida milhares de vezes pode adquirir aparência de verdade. E uma verdade mal explicada pode acabar soterrada por uma avalanche de versões emocionalmente mais atraentes.

Esse talvez seja um dos maiores dramas do Brasil contemporâneo: estamos aprendendo a defender nossas convicções, mas desaprendendo a questioná-las.

Vejo um país cansado. Uma sociedade emocionalmente desgastada, mergulhada em conflitos políticos intermináveis, preocupada com o custo de vida, com o endividamento, com a insegurança econômica e com o futuro de seus filhos.

Os desafios financeiros são reais e exigem responsabilidade. Entretanto, previsões de colapso inevitável precisam ser tratadas com cautela, porque o medo do futuro também pode ser manipulado politicamente.

O que mais me preocupa é perceber como tantas pessoas passaram a rejeitar qualquer informação que contrarie suas crenças. Não importa a origem, o argumento ou a evidência: basta que uma ideia venha do campo político adversário para ser imediatamente descartada.

Isso não é pensamento crítico. É aprisionamento ideológico.

A inteligência emocional de uma sociedade também se revela na capacidade de ouvir aquilo que não deseja ouvir.

Precisamos recuperar a serenidade para distinguir fatos de opiniões, denúncias de provas, críticas legítimas de acusações infundadas. Uma democracia verdadeiramente madura não pode depender de cidadãos que apenas repetem o discurso de seus líderes.

Mas quero terminar esta reflexão olhando para algo que considero ainda mais importante: a nossa capacidade de continuar construindo o futuro.

Nós, que vivemos no Sul do Brasil, conhecemos o valor do trabalho, da persistência, do empreendedorismo e da coragem de recomeçar. São virtudes que também encontramos em milhões de brasileiros de todas as regiões deste imenso país.

Não podemos permitir que Brasília ocupe todos os espaços da nossa vida, consuma nossas energias e nos faça esquecer aquilo que está ao nosso alcance.

Precisamos olhar menos para as disputas do poder e muito mais para o poder das nossas próprias atitudes.

O Brasil enfrentará desafios. Alguns difíceis, outros imprevisíveis. Mas não podemos entregar nossa esperança a governos, partidos ou lideranças políticas como se o nosso destino dependesse exclusivamente deles.

Continuaremos trabalhando, empreendendo, educando nossos filhos, fortalecendo nossas comunidades e procurando construir uma vida digna.

Porque a prosperidade de uma nação não nasce apenas dos gabinetes de Brasília. Nasce também nas mãos de quem acorda cedo, assume responsabilidades, enfrenta dificuldades e não desiste de construir algo melhor.

Que não nos faltem coragem para questionar, lucidez para compreender, equilíbrio para discordar e determinação para continuar.

O Brasil precisa de instituições fortes, imprensa responsável e cidadãos livres para pensar.

E, acima de tudo, precisa de um povo que não permita que a política lhe roube a capacidade de viver, trabalhar e acreditar no amanhã.

Viva o brasileiro que trabalha, que pensa por si mesmo e que acredita na prosperidade construída com dignidade, liberdade e responsabilidade!

Júnior Chisté
Psicólogo, escritor e palestrante

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