Pandemia fez aumentar os casos de ansiedade, depressão, insônia, crise de pânico e alterações de humor e apetite, mas é hora de planejar o descanso e recuperar o fôlego para 2021
Malabarismo entre os dias de home-office e trabalho presencial, tentativas de conciliar os horários das aulas online dos filhos com outras demandas, esforços para dar conta dos cuidados com a casa e a assistência aos pais e avós em confinamento ou familiares doentes. Alguém se identifica?
Em 2020, milhares de famílias brasileiras – e de todo o mundo – enfrentaram essa rotina, somada ao desemprego, tentativa de recolocação no mercado e preocupação constante com os rumos da pandemia. “A vida ficou mais complicada em um mundo que parece ter parado de girar”, explica a psicóloga Daniela Jungles, mestre em Ciências da Educação pela Université de Sherbrooke (Canadá) e supervisora do Serviço-Escola de Psicologia do UNICURITIBA.
O novo coronavírus não colapsou apenas o sistema de saúde, mas desconcertou o equilíbrio mental. E não foram necessários muitos meses para que o Brasil, considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o mais ansioso do mundo, revelasse a influência da pandemia no aumento de casos de transtorno mental na população.
A estimativa é que 18 milhões de brasileiros sofram com ansiedade e mais de 12 milhões de pessoas tenham depressão no Brasil, segundo a OMS. De acordo com a professora do UNICURITIBA, a entidade aponta inclusive um crescimento nos índices de suicídio, depressão, medo, ansiedade, violência doméstica, fragilidade das redes de proteção e uso abusivo de álcool e outras drogas desde março.
“Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro revela que os casos de depressão praticamente dobraram no Brasil durante esse período. O isolamento, a preocupação com a saúde e com o trabalho também agravaram problemas como o estresse e a ansiedade”, comenta.
Com tantas emoções negativas, as pessoas ficaram mais sensíveis a episódios de insônia, crises de pânico e alterações significativas no apetite e no humor. Para quem vem sofrendo com isso, a dica da especialista Daniela Jungles é buscar canais de ajuda, como grupos de apoio, e manter contato frequente com familiares e amigos. “Se os sintomas persistirem e se tornarem intensos e frequentes, a orientação é procurar ajuda profissional.”
Afinal, por que estamos tão exaustos?
O ano de 2020 parece ter sido mais cansativo que os outros. A queixa de exaustão é recorrente nas conversas entre colegas de trabalho, amigos e familiares.
Segundo a psicóloga, isso ocorre porque ao focar em um assunto específico por muito tempo, o cérebro mobiliza energia e atenção excessivas para o mesmo assunto. E a pandemia está no centro das atenções durante muitos meses.
Em uma analogia, Daniela diz que é como fazer uma longa viagem de carro, em que o modo hiper vigilância fica acionado durante todo o trajeto. “Ao final do percurso, estaremos esgotados por causa da tensão vivida na estrada. No caso do coronavírus, a situação é a mesma e ficamos no modo hiper vigilantes quase que full time.”
Isso ocorre, explica a psicóloga, porque as pessoas acompanham diariamente as notícias da Covid-19 e se preocupam excessivamente com o tema. “É um estado de atenção permanente. Olhamos constantemente para os outros, quem está perto demais, quem está usando máscara ou não, sem contar as mudanças impostas no relacionamento com familiares e amigos, as mudanças no modo de trabalho e as repercussões econômicas da pandemia. É tudo muito exaustivo e não temos pausas para relaxar, afinal, a pandemia ainda não acabou!”
Férias, como torná-las reparadoras
Antes que o esgotamento mental se transforme em patologias mais graves, como depressão, é preciso estar atento e procurar ajuda. A psicóloga Daniela Jungles diz que os sinais são sensação de peso e incapacidade de continuar realizando atividades do dia a dia, fadiga física crônica, distúrbios do sono, irritabilidade, dificuldade de concentração e falta de motivação.
A melhor maneira de superar a exaustão emocional é descansar e tomar uma atitude diferente em relação às obrigações diárias. Pensando nisso, ela preparou algumas dicas para quem já está pensando em desacelerar neste fim de ano:
Dedique tempo para descansar e realizar atividades gratificantes em seu dia a dia.
Aprenda a deixar de lado a obsessão de querer administrar tudo. Nós não temos super poderes!
Desista de seguir a lógica perversa das redes sociais e de acreditar em falsos ideais.
Comparar-se com a blogueira fitness fazendo uma série de exercícios e dizendo que dá tempo de ter o “corpo de verão” é depressogênico.
Conecte-se com pessoas que são reais e que estão enfrentando desafios semelhantes aos seus.
Tenha em mente que, em muitas regiões, é possível que ocorra o reconfinamento: será normal demorar mais para conseguir relaxar nesse final de ano.
Conforme-se com a velha máxima: “Aceita, que dói menos”! Aceite que o Natal será diferente e que as férias não serão como planejadas. Encarar a realidade diminui o sofrimento.
Nas férias, mantenha o foco no descanso, sem viagens longas de carro, congestionamentos, atropelos em rodoviárias e aeroportos.
Durma até mais tarde, fique um dia sem fazer nada, leia ou maratone uma série que você quer ver há tempo. Tudo isso tem seu encanto.
Aproveite o período de relaxamento para se preparar para 2021 e fazer projetos pós-crise: uma viagem, uma festa, uma reforma ou um novo jardim. A falta de planos equivale a uma lesão neuropsicológica. Estimule seu cérebro positivamente.
 
A psicóloga Daniela Jungles reconhece que, neste momento, pode ser difícil exercitar esses conselhos, mas ela insiste: “É a lógica de fazer uma bela limonada com os limões que a vida nos dá. Nesse momento não temos muita escolha a não ser tentar passar as férias da melhor forma possível.”.
O tempo necessário para o relaxamento, finaliza a especialista, vai depender muito do tipo de trabalho de cada pessoa, do quão cansada ela está, de sua personalidade e de suas expectativas e planos para o recesso de fim de ano. “Pessoas muito envolvidas em seu trabalho precisam de mais tempo para se desconectar da rotina e realmente descansar. Mas, em média, estima-se que são necessárias duas semanas consecutivas para realmente experimentar os benefícios das férias.”